terça-feira, 3 de dezembro de 2013

O MENINO ERÊ




Joãozinho ginga e se remexe, e saracoteia e serpenteia _  no movimento intermitente é que confunde as gentes: o que os olhos veem? Um ser articulado movido a pilhas alcalinas? Será um bailarino, esse menino?...
Ele quando gira nos magnetiza, então, quais adultos feito bobos à própria rigidez, sob o seu comando, mantem-nos todos: estalasse os dedos à nossa frente, e a vida nem nos pesaria!...
Joãozinho é mágico, mas, por puro equívoco, cremo-nos a conduzi-lo quando no rodopio, e, à travessura, em meio às gentes, vê-se lhe o esbarrar dos braços cor de mate, noutros braços pequeninos quais os seus _ fá-lo, propositadamente. Também as pernas, diminutos gravetos, movimentam-se rumo às outras pernas, deliberadamente. 
Ouve-se, então, um grito ressentido, apoquentado:
_ Pára, Joãozinho, moleque atentado!...
Ele nos sorri, um riso articulado, que lhe põe à mostra os dentes pequeninos, de bichinho novo, recém desmamado...  Ao nosso equívoco, à nossa ignorância, dizemos aos que nos podem ouvir: "convém não sorrir, pra não dar confiança. É preciso mostrar autoridade".
O menino Joãozinho, de brinquinho na orelha e cabelo liso que só (apesar da pele escura cor de mate), cortado rente ao casco da cabeça, num corte moderninho, é tatibitate.
Vimo-lo, certa vez, arrastar-se feito bicho pelo chão: como um lagarto, um jacaré, uma cobra talvez! 
Desconfiada à sua cor de mate, ao cabelo espetado, ao jeito espevitado de menino encantado, disse-o, às gentes: o Erê está aqui à nossa frente!...
Como me convinha, servi-me da inusitada descoberta para, às travessuras, valer-me da estratégia de olhá-lo bem nos olhos (tenho lá minhas mandingas!...). Ele apercebeu-se de mim, no que nos tornamos  unidos na magia.
O menino Joãozinho, de inteligência arguta, metro e pouco de altura e constante bailado, mesmo descoberto, mantém-nos encantados.
Ao abraço fortuito que vez por outra nos oferece, ao incerto amanhã, rogamos em prece:
_ Senhor Deus, proteja esse menino. Dá-lhe um bom destino (ao menino, que o Erê disto não carece)!...

2 comentários:

  1. Lindo modo de descrever esse menino. Adorei te ler! Pude imaginar as cenas!beijos,chica

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